quarta-feira, 21 de julho de 2010

1.

Levantou e olhou para o lado. Não sabia se a figura que se estendia na cama de bruços e aberta aos ventos ao seu lado estava ainda viva. Sentia-se extasiado. Ficou de pé, tomou o cigarro que estava na cabeceira, e partiu em busca do isqueiro. Remexeu por entre as roupas que foram despidas, nada. Abriu a bolsa da moça. Dólares, carteiras, celulares, absorventes... Isqueiro! Era exatamente isso que procurava.
Respirou, acendeu o cigarro. Deu uma ríspida olhadela às nádegas já vermelhas da dama de muitos homens. Não era bela, nem um pouco, mas pouco importava. Tudo que queria era – o que mesmo? – a paz.
Esfumaçou, deu mais uma tragada. Andou pelo quarto, chutou algo que pensou estar vivo. Como de costume abriu a carteira, contou o dinheiro, molhou o dedo com a ponta da língua e contou mais um pouco, era o suficiente, achava, pôs entre o bolo de notas dentro da bolsa. Ele sabia que uma hora ela iria acordar e voltar a trabalhar, mas a partir do momento em que a porta batesse, todo amor – e pensou na ironia dessa palavra – custou um punhado de papel e o preço do bordel.